Um projeto que mora em mim

Em 2005, concluí o curso superior de Design na Universidade de Brasília com um projeto de diplomação que nomeei Religare.

Não era apenas um projeto acadêmico. Escolhi um tema que me motivava e também me gerava curiosidade positiva: pesquisar formas de expressão do Divino através do humano, ao longo de tempos imemoriais — respeitando o conteúdo e a forma que cada cultura, cada povo, soube dar a essa busca — e contribuir com o que um projeto de design pode oferecer com maestria: uma visão de conjunto, uma identidade visual.

Segui em frente. Por mais de vinte anos, o design foi o ofício das minhas mãos — moldando letras, símbolos, formas que passaram por muitas mesas, muitas vitrines, muitos olhares de pessoas que talvez eu nunca chegaria a conhecer. Aprendendo, projeto após projeto, a entender a inspiração que cada ideia pedia antes de desenhar a primeira linha.

E o tempo, generoso, foi deixando reconhecimentos pelo caminho — mas o que ele realmente me deixou foi um olhar treinado para enxergar o essencial, para saber o que tirar até sobrar só o que importa.

Segui também por caminhos digitais, aprendendo — hoje meu universo profissional transita entre a intensidade da tecnologia, da inteligência artificial, da gestão — e também o visual, em projetos editoriais, de design e audiovisuais.

Mas o Religare sempre permaneceu. Ficou guardado, como uma semente que espera sua estação.

Durante estes anos, minha esposa vez ou outra me lembrava: e o Religare? Ela foi — e é — peça fundamental nesse projeto, assim como é, há mais de 30 anos, parte fundamental da minha vida.

E talvez seja exatamente esse contraste que estou vivendo profissionalmente que o fez florescer de novo agora. Quanto mais perto estou da aceleração do mundo, mais sinto falta do seu oposto. Do silêncio. Da pausa. Do gesto simples de olhar para dentro.

Percebo que não sou o único — muitos sentem essa vontade de desacelerar, de voltar a se conectar: com o outro, com o que é essencial, com o Divino, qualquer que seja o nome que você dê a Ele.

O Religare renasce nesse encontro. Entre o que há de mais humano em nós e um mundo que corre depressa demais. Entre a técnica e o silêncio.

Hoje, criar cada peça é quase um exercício de respirar mais devagar. Um instante de escuta antes de qualquer traço, onde sinto a presença de Deus e desejo o que é de melhor pra todos que o projeto tocar.

E é esse instante que eu gostaria de oferecer a quem passar por aqui — mesmo que não leve nada consigo, além de um pouco mais de leveza, de paz.

Se este projeto puder ser uma gota de calma num oceano tão agitado, já terá cumprido seu propósito.

Somos, no fundo, irmãos numa mesma busca.

Boa viagem.

Tuco Moraes

fundador do Religare